quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O quarto das filhas

Muitos israelitas só viram a dor em Gaza quando o médico Izzeldin Abuelaish telefonou para a televisão a pedir ajuda. Três filhas suas acabavam de ser mortas por um tanque israelita. A Pública foi ao quarto onde elas morreram e ao hospital de Telavive onde o pai trabalha. Sexta-feira, 16 de Janeiro Em Telavive, o jornalista Shlomi Eldar está sentado no estúdio do Canal 10 enquanto a pivot apresenta as notícias. A guerra de Gaza dura há três semanas e os jornalistas estrangeiros estão impedidos de entrar. Eldar fala árabe, é o repórter que cobre "temas árabes" e tem entrevistado habitantes de Gaza ao telefone. Um dos interlocutores regulares é o médico palestiniano Izzeldin Abuelaish, que vive entre Gaza e Telavive, onde trabalha num hospital. Eldar conta entrevistá-lo justamente hoje, pelo que tem o telemóvel ligado. O que os espectadores israelitas vêem a seguir é uma rara sequência em televisão. A pivot, perplexa, passa a palavra a Eldar. Ele agarra o telemóvel e põe-no em alta-voz. Ouve-se um homem desesperado, a chorar, a gritar. "Shlomi, eles mataram as minhas filhas!" Eldar vai explicando aos espectadores que aquele homem é um médico, que trabalha em Telavive há anos e tem oito filhos. Do outro lado, o homem grita, em agonia. "Shlomi! Ninguém consegue chegar até nós!" O jornalista pergunta onde fica a casa, que talvez possa ajudar, mandar uma ambulância. Isto prolonga-se por quatro minutos, quatro longos minutos de televisão. Até que Eldar retira o auricular e sai do estúdio. Uma câmara segue-o, enquanto ele contacta o exército. E consegue que uma ambulância vá ter com Izzeldin Abuelaish. Em alguns dos vídeos que se podem ver no YouTube, o médico palestiniano aparece a beijar a mão da sua filha Shada, deitada numa maca, ferida num olho e na mão. Vêm para o hospital Tel Hashomer, em Telavive, onde Abuelaish trabalha. Juntam-se médicos, repórteres, uma multidão que seguiu o drama em directo. Agora Shada já está na cama, Abuelaish faz-lhe festas, chora, pergunta: "Porquê? Porquê nós?" Médicos israelitas abraçam-no, choram com ele. E então uma mulher, mãe de um soldado, desata a gritar-lhe que o exército não se enganou, que ele deve ter armas em casa e por isso é um alvo, e grita, grita, enquanto a multidão à volta assiste em silêncio. Talvez outros pais e mães israelitas tenham pensado ou querido pensar o mesmo, barricados em si próprios, incapazes de ver um pai do outro lado. Mas o primeiro momento em que muitos israelitas conseguiram ver a dor em Gaza foi este, a dor em directo de Izzeldin Abuelaish. Uma dor entre muitas outras, mas que furou o cerco e chegou à gente nos sofás, antes de jantar. Para Israel, a guerra do Líbano em 2006 foi um desaire, e a guerra de Gaza veio insuflar o orgulho nacional, a certeza de que o Estado judaico pode e deve defender-se das ameaças, que se concretizavam nos rockets do Hamas. Por isso, quando Israel começou a bombardear Gaza, só a esquerda radical - para os parâmetros israelitas - foi contra. E, durante semanas, a grande maioria da população continuou a apoiar o que os militares chamavam "operação". O historiador israelita Tom Segev disse à Pública que o drama do médico que perdeu as três filhas foi o momento em que muita gente disse: "OK, talvez baste." Segunda-feira, 26 de Janeiro Em Jabaliya toda a gente sabe onde fica a casa do doutor Izzeldin Abuelaish. Jabaliya é o campo de refugiados em Gaza onde começou a Primeira Intifada. Ruelas tortas com buracos, má construção e carros velhos, uma vida fervilhante nas ruas, quatro gerações de refugiados, desde 1948. Aqui nasceu e continua a viver Izzeldin Abuelaish. Há nove anos a família construiu uma casa nova com quatro pisos, um por cada irmão. A Pública não precisa de perguntar duas vezes onde é. O primeiro rapaz sabe, entra no carro e vai dando direcções. A primeira coisa notável é que a casa está isolada, não tem outras à volta. Não é muito fácil alguém esconder-se ao lado ou atrás. É uma péssima casa para quem queira fazer a guerra, o que bate certo. Izzeldin Abuelaish tem sido um convicto partidário da paz. Sendo médico, trabalhando em Israel e falando hebraico, tornou-se numa imagem rara de Gaza para os israelitas - um rosto para a possibilidade de paz. A segunda coisa notável é que a casa tem buracos no segundo andar quase do tamanho de uma parede. Não são buracos de tiros. Mohammed, 13 anos, um dos sobrinhos de Abuelaish, aparece a descer os degraus. O seu célebre tio não está, continua com a filha e a sobrinha feridas em Telavive. Mohammed leva os visitantes a um adulto, Saleh, 46 anos, primo de Izzeldin. "Eu não estava aqui quando a tragédia aconteceu", diz Saleh, subindo até ao segundo piso. Passando a porta, aparece um salão cuidadosamente pintado, com frescos e reboco, aberto para uma cozinha bem equipada. É visivelmente uma casa nova, em que tempo e dinheiro foram investidos. Mas, agora, os móveis estão partidos, há portas no chão, pilhas de entulho e buracos. E quando Mohammed indica um quarto, a destruição torna-se avassaladora. Duas das paredes, a da esquerda e a da frente, são agora buracões. Por cada uma entrou um obus. As outras paredes e o tecto estão esburacadas e cheias de sangue. Há um autocolante com o nome Barbie numa delas, e depois a própria Barbie, de saia rodada. "Este era o quarto das filhas, está a ver?", pergunta Saleh. Vê-se que sim. Porque há um beliche, agora coberto de destroços. E há uma chinela, um caderno de Economia Internacional, exercícios de inglês, vários CD, uma cruzeta, duas botas com fivelas, um cachecol, um álbum sobre a Turquia, um teclado de computador, um ténis-cor-de-rosa, uma malinha preta, um compasso, um Pato Donald a rir. E tudo está no chão, partido, coberto de cimento, sujo de sangue, com roupa enrodilhada em traves e metal. Cada coisa diz que isto é um quarto de raparigas, da mais nova, que ainda gostava da Barbie, à mais velha, que estudava Economia. Estavam a aprender a viver sem mãe, morta com leucemia há cinco meses. Quarta-feira, 4 de Fevereiro As forças armadas israelitas divulgam os resultados do inquérito "respeitante ao incidente na residência do dr. Abuelaish". As conclusões são que "dois obuses foram disparados de um tanque, causando a morte das três filhas". Os soldados tinham ficado sob "fogo de atiradores e morteiros" na área de Sajaiya. Identificaram a fonte do fogo numa casa adjacente e dispararam. Depois "figuras suspeitas foram identificadas no último andar da casa do dr. Abuelaish e pensou-se que fossem colaboradores a dirigir o fogo do Hamas". Após "avaliar a situação no terreno enquanto estavam debaixo de fogo pesado, o comandante da força deu ordens para abrir fogo contra as figuras suspeitas". Foi "desse fogo que morreram as três filhas do dr. Abuelaish". Segunda-feira, 9 de Fevereiro É noite em Telavive. Izzeldine Abuelaish está sentado com amigos e a filha Shada num pequeno apartamento do hospital Tel Hashomer, onde há anos trabalha. Quando trouxe a filha e a sobrinha feridas de Gaza, este hospital, o maior de Israel, cedeu um espaço onde ficassem durante o tratamento. Shada tem um olho tapado. Já foi operada duas vezes e espera-se que recupere a visão. Também perdeu dois dedos da mão direita. Está a fazer fisioterapia. É uma adolescente com covinhas, e sorri, a segurar a mão enfaixada, enquanto o pai lhe pergunta: "Então, qual é a capital de Portugal? Lish...?" Uma amiga da família faz café. Shada vai dormir. Depois do comunicado do exército, o dr. Abuelaish foi citado na imprensa israelita a dizer: "Todos cometemos erros, e não os repetimos." E em alguns títulos apareceu só: "Todos cometemos erros." Como se tudo estivesse esclarecido. Mas a frase, diz, foi truncada. "As pessoas dizem que se o exército matou numa situação destas foi sem intenção e que toda a gente comete erros. O que eu digo é que todos cometemos erros mas temos de aprender com eles, não os podemos repetir." E quanto ao comunicado, os soldados falam de Sajaiya como se fosse a área da sua casa. "Não é, fica a quatro ou cinco quilómetros. Eles misturaram duas coisas. Não havia snipers nem fogo nenhum perto da nossa casa, não há casas adjacentes onde alguém se possa esconder." E antes e depois do comunicado outras coisas foram mal ditas e misturadas, como a ideia de que Abuelaish vai pedir asilo. "Nunca pedirei asilo a nenhum país do mundo. Sou palestiniano, até ao fim, a defender os nossos direitos. Também disseram que eu ia emigrar para o Canadá, quando apenas pensei ir dois ou três anos para o Canadá trabalhar." De resto, o seu cartão de visita diz Jabaliya. Os pais eram da aldeia que hoje é o rancho de Ariel Sharon. Quando Israel foi criado, refugiaram-se em Gaza, onde há 53 anos Abuelaish nasceu. "Nasci, fui criado e vivo no campo de refugiados de Jabaliya. É o meu povo, as minhas filhas estudam lá, na escola da ONU." Trabalhar aqui, em Telavive, é algo que vem dos chamados "anos de Oslo", os mais tranquilos do conflito, entre a Primeira e Segunda Intifada. Em 1993, Abuelaish tornou-se "no primeiro médico de Gaza a trabalhar de forma permanente num hospital em Israel". Já tinha filhos, e continuou a ter, oito ao todo. Organizou a sua semana assim: de domingo a quinta está em Telavive. Quinta à noite chega a Gaza. "Sexta-feira é para os meus filhos. Sábado, das 8h às 12h, ensino lá, na Escola Médica. E das 15h às 21h faço clínica de graça para os meus doentes de lá." De cada vez que entra e sai de Gaza tem de passar Erez, o mais inexpugnável dos checkpoints, e passa a pé como toda a gente. Tornou-se numa rotina. Ao longo destes anos de vaivém, continuou a fazer especializações. Genética em Itália e Bélgica, saúde pública em Harvard. Concorreu às eleições palestinianas em 2006 como independente e hoje diz: "Felizmente não fui eleito." Em vez disso, foi um ano para o Afeganistão, como consultor do Ministério da Saúde. "Estava seis semanas em Cabul, duas em Gaza." Também foi consultor, em colaboração com a União Europeia, no Quénia e no Iémen. A 25 de Dezembro de 2008, uma quinta-feira, deixou Telavive e foi para Gaza, como sempre. "Às onze da manhã de sábado começaram os bombardeamentos. Os vidros rebentaram logo. Na primeira semana, ainda saía para ir buscar comida, mas quando começou a invasão terrestre ficámos fechados, sem bens essenciais como electricidade, gás, água." Os geradores fazem barulho e podiam atrair a atenção." Vivemos na escuridão, dormimos em colchões na sala e na cozinha, e a minha filha Shada sentava-se à secretária com velas a estudar. Mas estávamos tão felizes de estarmos juntos." Contando as mulheres e filhos dos quatro irmãos no prédio, ao todo 27 pessoas. "E os meus amigos israelitas e os jornalistas telefonavam duas, três vezes por dia." Até que a 14 de Janeiro um tanque se aproximou. "Foi chocante, como se eu visse a morte. Telefonei a Shlomi [Eldar, o jornalista do Canal 10], expliquei-lhe, ele comunicou com o exército, comecei a receber chamadas para saber onde ficava a casa. Um coronel Mahdi telefonou-me de Erez, pedi-lhe que retirasse o tanque e o tanque retirou! Fiquei tão contente. Isso significava que já conheciam a casa, que estávamos seguros. As crianças celebraram, estavam eufóricas!" Na noite de quinta para sexta mal dormirarm, por causa dos bombardeamentos, mas o pior parecia ter passado." De manhã, acordei as crianças, para o pequeno-almoço. Falámos do que elas queriam estudar. Shada queria Engenharia Informática. Mayar, disse: 'Eu estudarei Medicina.' Aya queria Jornalismo. Nenhuma delas alguma vez teve menos de 97 por cento nos testes. E no mesmo dia, Mayar disse: 'Dá os parabéns a Aya.' Porquê? 'Ela teve o período.' Tinha-se tornado madura, aos 13 anos. Comecei a rir, falei com ela. São minhas amigas, as minhas filhas. Depois consegui falar ao telefone com a minha filha que estava com a tia. Perguntei-lhe: 'O que queres estudar, para onde queres ir? Tenho duas ofertas para trabalhar, em Toronto e em Haifa.' Ela disse: 'Quero voar.' Eu disse: 'OK, então podemos ir para o Canadá. Tudo está pronto na embaixada canadiana, mal haja cessar-fogo.' A minha sobrinha de 17 anos tinha vindo dois dias antes ter connosco, correndo o risco, com uma bandeira branca. Disse: 'Eu quero morrer aqui, não quero ficar em mais nenhum refúgio público no campo, é intimidante, é humilhante. Vocês estão no paraíso em comparação com a nossa vida lá, há dez dias que não tomo banho.' E ficou connosco, veio para o seu destino." Pelas quatro da tarde, Abuelaish tinha uma entrevista marcada com a televisão. Afastou-se dos filhos. Foi quando veio o primeiro obus pela janela do quarto das filhas." Cortou-lhes as cabeças. O que viu no tecto são partes do cérebro. Eu vi Shada com o olho a vir para fora, e os dedos, e quando entrei no quarto não consegui reconhecer as minhas filhas e a minha sobrinha, sem cabeças. A minha filha mais nova veio a gritar, e a minha sobrinha desceu com os irmãos dos outros andares. E então veio o segundo obus." Morreram Bisan, 20 anos, Mayar, 15 anos, Aya, 14 anos (as filhas), e Nur, 17 anos (a sobrinha). "Comecei a contactar com Shlomi. Pedi para as transferir para aqui, e conseguimos salvar os olhos da minha filha e a minha outra sobrinha, que estava ferida. É a luz que há nesta escuridão." A amiga da família que esteve a fazer café há-de dizer, quando ele não estiver a ouvir, que Abuelaish chorou, gritou, mas não perdeu o centro. Continua a ser pai de cinco crianças que não têm mãe. E brinca com Shada, recebe quem o visita, fala, continua a falar pela paz. "O que fica disto é que o sangue das minhas filhas não foi desperdiçado, fez uma diferença. Para abrir, espero que de forma permanente, os olhos e mentes dos israelitas, para os fazer ver que há outro lado, uma nação palestiniana a viver ali. É isso que me deixa feliz, que os israelitas tenham começado a olhar, porque, se queremos julgar, temos de olhar para fora da nossa moldura. E que tenha sido também uma razão para este cessar-fogo, para salvar vidas." Voltou a Gaza três vezes. Viu como a guerra "extremou o ódio, a animosidade" e fez tudo voltar para trás. "É doloroso, porque trabalhámos muito para ultrapassar a animosidade. E não há outra forma, temos de aprender a viver uns com os outros. Agora estamos mais longe, mas não há outra alternativa, se não dar a cada um os seus direitos, com justiça." Abuelaish tem uma ideia concreta e imediata. "Fortalecer a educação das raparigas de Gaza, para que participem nos processos de decisão." Pensou numa fundação, e está aberto a quem quiser ajudar. Alexandra Lucas Coelho, em Telavive

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Israel é um vírus!?

Factos: É um estado ocidental, colocado pela força/conveniência (ingleses 1949) na palestina. É um corpo estranho naquela região. Apenas sem fronteiras (como se vivia naquela região antes de irem para lá os "bondosos" ingleses) poderiam viver em paz e prosperidade cristãos, islâmicos e judeus!! Religiões que viveram juntas durante séculos do império otomano e árabe, da mesma forma que judeus e cristãos sempre viveram bem e sem problemas no “Terrorista” estado do Iraque, até serem invadidos pelas forças do bem ocidental “Marines e outros cobardes”. Se queriam um estado judaico, que o tivessem criado ou na Europa derrotada, ou em casa dos que se dizem seus tão grandes amigos: norte-americanos e/ou ingleses. Aquele estado artificial, com fronteiras feitas com sangue de milhares de inocentes (dos dois lados, se bem que mais de um lado que do outro) é como uma doença no corpo dum moribundo, tem de ser destruído; senão é ele que destrói.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Eyad Sarraj, se eu tivesse um rocket, tê-lo-ia atirado contra israel

Crianças palestinianas regressam à escola no sábado pela primeira vez desde o começo da ofensiva israelita
(© Olivier Laban Mattei/AFP)
É o rosto internacional de Gaza. Durante a guerra podia ter saído e não quis. A cada momento pensou que podia ser ele a morrer. Tinha visto as intifadas, e todas as guerras desde 1948, mas nesta viu "a cara pior de Israel". E deixou de ser pacifista. A dignidade está na resistência. Agora, defende boicote, desinvestimento e sanções contra Israel.
Como centenas de milhares de pessoas em Gaza, o psiquiatra Eyad Sarraj está a pisar vidros e outros destroços. "Isto é o meu gabinete!", diz, ainda perplexo.
É domingo, o primeiro dia depois do cessar-fogo em que a Cidade de Gaza voltou a ter engarrafamentos, porque já não caem bombas e já se arranja gasolina. Os mercados estão cheios de frutas e de roupas, nas ruas há milhares de cabeças brancas, que são as raparigas a caminho da escola com os seus lenços de estudante. Por toda a parte se vêem crianças de mochila e farda às riscas, a irem para as aulas ou a voltarem das aulas, consoante os turnos.
E no meio de toda esta vida, em cada esquina, sinais frescos da guerra. Às vezes são prédios transformados num monte de entulho, como se tivessem acabado de desabar. Às vezes só uns rombos, umas paredes, uns vidros partidos.
Foi o que aconteceu à sede do Programa de Saúde Mental de Gaza, uma organização não-governamental dirigida por Sarraj e reconhecida pelo mundo.
Aos 64 anos, Eyad Sarraj é o rosto não-partidário e internacional de Gaza.
Quando o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, aqui veio há dias, falou com ele. Políticos, mediadores, organizações humanitárias em visita a Gaza vão ouvi-lo. E depois há os jornalistas.Uma televisão assentou a câmara entre os cacos e está a entrevistar Sarraj no momento em que o P2 chega para o fotografar.
O escritório fica no quarto andar da organização, e por baixo os estragos não são menores. Há tectos que abateram e vidros por toda a parte. Os funcionários olham do jardim para o que aconteceu, em silêncio.
Em casa na guerra
O P2 entrevistou Eyad Sarraj em sua casa sexta-feira, primeiro dia em que centenas de jornalistas estrangeiros puderam entrar em Gaza, depois de Israel ter bloqueado o checkpoint durante semanas.
Em Junho de 2007, num encontro anterior com o P2, Sarraj recuperava de tratamentos a um cancro. Agora o cabelo voltou a crescer. "Estou óptimo." E assim parece.
Ao contrário do escritório, a sua casa no centro da Cidade de Gaza não foi atingida. Tudo intacto, do jardim à grande sala de estar.
"Passei aqui a guerra", diz, sentando-se ao lado de uma estante com livros e dois alaúdes antigos. "Os britânicos e a ONU telefonaram a perguntar se eu queria sair. Tenho um passaporte britânico e a minha mulher trabalha para a Comissão de Direitos Humanos da ONU. Ela queria ir, mas eu disse que não. Depois temos a culpa do sobrevivente, de não termos estado aqui.
"E durante 22 dias, Sarraj e a família viveram como toda a gente em Gaza.
"Estávamos aterrorizados. De cada vez pensávamos que podíamos ser nós. À volta tantas casas foram bombardeadas. A casa da presidência, a sede da polícia, a Universidade Islâmica, tudo isso é aqui ao pé."
A casa estava cheia: ele, a mulher, três crianças, a cunhada com a filha e amigos com cinco filhos. Não havia electricidade, usavam um gerador. "De manhã, tudo isto estava cheio de crianças", e abre os braços para a sala. "Uma noite, ninguém conseguiu dormir, foi um bombardeamento constante, todo o dia e toda a noite, com explosões enormes." Faz uma pausa. "Sabe a que conclusão cheguei? Que isto é o mal sem fronteiras."
E a partir daqui Eyad Sarraj - o pacifista, promotor dos direitos humanos, um palestiniano que se encontrou com tantos israelitas e viajou pelo mundo a defender o diálogo - começa a explicar o efeito que esta guerra teve nele: "Sempre falei na necessidade de paz com Israel, mas agora já não acredito na paz. Estávamos a iludir-nos. É impossível ter paz com um sistema racista, de apartheid. Israel, que é experiente em trauma desde o Holocausto, que podia falar ao mundo em direitos humanos e igualdade, tornou-se um caso de doença patológica, de paranóia."
Fala sem hesitação, como se ao longo da guerra isto se tivesse encadeado no seu espírito.
"Os judeus trouxeram tanta dor do Holocausto e estão a projectar isso nos palestinianos. Em vez de lidarem com o seu trauma, projectaram a vitimização nos palestinianos. Suprimiram a culpa, não a exprimem." Na esquerda da esquerda israelita, não é assim. Mas Sarraj sabe que é uma pequena percentagem. "Intelectuais israelitas clarividentes expressam essa culpa de muitas formas. Mas o sistema político e a comunidade em geral estão doentes: culpam os palestinianos."
A maioria dos israelitas aprovou a guerra por causa dos rockets do Hamas e muita gente acha mesmo que foi a melhor guerra de Israel em anos.
A raiz do mal
"Durante muito tempo ouvi dizer que podíamos ir viver para outro país árabe", continua Sarraj.
"Porque é que não vão embora?', ouvia eu. Ontem, disse à Comissão Europeia, a Chris Berger e 22 representantes europeus: 'Se gostam tanto de Israel, aconselho-os a levarem Israel para casa.' Pois se a nós nos dizem que podemos ir para os países árabes, eles que vão para a Polónia, para a França, onde serão tratados como iguais. Pois aqui, desde que Israel foi fundado, é guerra atrás de guerra. Israel semeia violência por toda a parte. Usa a força bruta ao máximo, pensando que assim compensa a fraqueza mostrada no Holocausto. Envergonham-se de terem sido levados para as câmaras de gás sem resistência. E agora não querem que nós resistamos."
O Holocausto, diz Sarraj, "tinha uma raiz do mal, e essa raiz foi exportada para aqui".
Escritores israelitas como Amos Oz trataram o trauma da fraqueza. Israel foi fundado na promessa musculada de que nunca mais os judeus se deixariam morrer como cordeiros. E o Exército, orgulho nacional, corporiza isto, com a contribuição de cada família.
No romance Ver: Amor, David Grossman defendeu que, pelo contrário, o humanismo devia ser a melhor lição do Holocausto.
"Há gente em Israel e na Europa do lado da justiça, e manifestam-se", diz Sarraj. "Mas os governos sempre apoiaram Israel porque o lobby israelita os pressiona com acusações de anti-semitismo e porque obedecem à América contra o seu livre pensamento. Conheci tantos diplomatas europeus, e todos disseram que não tinham alternativa que não seguir a América. A Alemanha não pode dizer nada por causa da história dos judeus e a Grã-Bretanha tem um forte lobby judeu."
E agora Obama? "Espero que faça a diferença. Vem dos desiguais, dos negros, tem essa herança e identifica-se com a vítima. Acho que ele conhece esta história. Veio cá, conheceu [o presidente palestiniano Mahmoud] Abbas. Abbas disse-me que lhe tinha mostrado os mapas de como o estado palestiniano tinha diminuído desde a proposta de 1948. Mas Obama precisa de coragem para enfrentar o lobby sionista."
Para já, crê Sarraj, Obama contribuiu para o cessar-fogo. "Acho que houve um acordo tácito entre Bush, Obama e Israel para acabar com esta guerra antes de ele tomar posse, para não começar a sua presidência com matança. E o preço que pagámos para isso foi o seu silêncio. Não é um bom sinal. Antes de tomar posse, tem a desculpa de haver só um Presidente. Depois, disse que a segurança de Israel é uma prioridade. Não me importo. Mas porque não falam na nossa segurança?"
Foi o que Sarraj perguntou ao secretário-geral da ONU, quando ele entrou em Gaza depois do cessar-fogo. "Querem todos proteger Israel, e quem nos vai proteger? Não temos marinha, nem tanques, nem F16. Todo o mundo está preocupado com Sderot [povoação israelita ao alcance de rockets] como se fôssemos invadir Israel! E não houve uma única casa destruída em Israel, só um telhado!"
Que respondeu Ban Ki-moon? "Que compreendia, que nos apoia, mas que temos que ter a certeza de que o processo de paz continua." O que é que Sarraj pensa disso? "Que é um disparate. Precisamos de pessoas corajosas como Richard Falk, o relator especial da ONU, que disse que Israel está a cometer crimes contra a Humanidade. Desmond Tutu tinha dito isso há meses."
Nascido em 1944 em Beersheva, hoje Israel, Sarraj sabe o que significa ser refugiado. "Eu vi 48 e as histórias de desenraizamento. Passei a guerra do Suez, apontaram-me armas, eu tinha 12 anos. Vi cadáveres. Vi 67, 73, a Primeira Intifada e a Segunda Intifada, a Primeira Guerra do Líbano e a Segunda. Mas nada foi tão devastador como esta guerra. Desta vez, eu vi a cara pior de Israel."
Se isso teve tamanho efeito nele, que efeito poderá ter numa população de luto, desabrigada e pobre? "Para as crianças é especialmente terrível. Atiraram pedras na Primeira Intifada.
Tornaram-se bombistas suicidas na Segunda Intifada. Agora vão tornar-se mais extremistas. Vão acreditar que só o poder as protegerá, e o poder está em quem tiver armas."
Em que posição fica o Hamas? "Nos próximos meses terá mais membros. E isso só se altera se as pessoas se sentirem seguras, com dignidade. O processo de paz agora é visto como uma forma de traição, porque não tem dignidade. Não há dignidade quando Abbas precisa de autorização dos israelitas para passar o ckeckpoint, e é de dignidade que precisamos."
Sarraj mantém uma certeza: "Os palestinianos nunca sentirão que são derrotados." E sentiu algo que nunca sentira: "Se eu nesta guerra tivesse um rocket, tê-lo-ia atirado contra Israel."
Durante anos foi "crítico do Hamas por usar rockets", quando "usar rockets contra civis é muito errado". Nesta guerra ficou certo de que os rockets foram uma desculpa. "Israel provou-nos que a guerra não era contra o Hamas. Os palestinianos em geral sabem que não é. Se o Hamas fosse erradicado agora, acha que Israel nos daria direitos? Israel quer-nos sem direitos e sem resistência. Se não houvesse ocupação não havia Hamas."
O boicote é uma arma
Este psiquiatra deixou de acreditar na paz. É na resistência que vê a dignidade. E neste pós-guerra - passado o momento em que até atiraria um rocket - acredita na resistência não-violenta, com um princípio de base: "Não devemos abdicar de nenhum dos nossos direitos, particularmente do direito de retorno."
Essa resistência tem três caminhos: "Israel deve ser boicotado em todo o mundo, como um sistema de apartheid, como na África do Sul. Deve haver uma campanha de desinvestimento. E sanções."
Já há casos, diz. "Uma companhia sueca perdeu agora um contrato de três mil milhões de dólares porque estava a construir as estradas dos colonatos em Israel. Tenho recebido centenas de mensagens e assinaturas de académicos estrangeiros a pedir um boicote."
A comportar-se "assim, Israel nunca será aceite no Médio Oriente", diz.
Não foi o que pareceu nesta guerra. "Não", reconhece Sarraj. "Ao ponto de o Egipto dizer que os palestinianos de Gaza são uma ameaça à segurança nacional egípcia. É inacreditável! Mas existe uma diferença entre os governos e a população, que protestou."
Para quem se podem voltar os palestinianos?
"Para si próprios. E para os israelitas com consciência. Israel não pode sobreviver assim. É preciso aprender com a História. A minha mulher tem o cabelo claro e os olhos verdes. Num checkpoint um soldado parou-nos e perguntou-lhe 'É casada com ele?', com o tom de quem pergunta 'Como é que um ser humano pode ser casado com um animal?' Isto é racista.Aconteceu no checkpoint de Erez, em 1979. Hoje o racismo é pior."
E os palestinianos deixaram que isso acontecesse, diz. "A culpa também é nossa. Da estupidez de Arafat, a assinar aqueles acordos. Da violência dos suicidas, que destruiu o campo da paz em Israel." Um grande erro. "Se protejo as minhas crianças, tenho que proteger as crianças de Israel, é o mesmo sangue."
De tudo isto Sarraj vai falar no livro que está a escrever. Vai chamar-se Sozinho em Casa, por causa de todas as pessoas da sua família que foi vendo partir para o estrangeiro. "É uma espécie de autobiografia ligada à política. O impacto psicológico de tudo isto na causa palestiniana e em mim."
A guerra de Gaza será um ponto-chave. "Tornou-me consciente do racismo de Israel. É uma grande mudança."
Reportagem Alexandra Lucas Coelho, em Gaza
(publicado em 26 de Janeiro na edição impressa do Público)